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10/12/2007

Segunda Pessoa

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!

Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.

Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu

Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.

Fernando Pessoa - 03/09/1924

26/11/2007

Segunda Pessoa

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

Fernando Pessoa - 5/9/1934

Segundo poema do espaço Segunda Pessoa.

24/11/2007

Rima LIII

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y otra vez con el ala a sus cristales
jugando llamarán.

Pero aquellas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha a contemplar,
aquellas que aprendieron nuestros nombres...
¡esas... no volverán!.

Volverán las tupidas madreselvas
de tu jardín las tapias a escalar,
y otra vez a la tarde aún más hermosas
sus flores se abrirán.

Pero aquellas, cuajadas de rocío
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer como lágrimas del día...
¡esas... no volverán!

Volverán del amor en tus oídos
las palabras ardientes a sonar;
tu corazón de su profundo sueño
tal vez despertará.

Pero mudo y absorto y de rodillas
como se adora a Dios ante su altar,
como yo te he querido...; desengáñate,
¡así... no te querrán!

* * *

Voltarão as escuras andorinhas
seus ninhos na varanda a pendurar,
e outra vez com as asas em seus vidros
brincando vão chamar.

Mas aquelas que o vôo suspendiam,
tua beleza e meu júbilo a fitar,
aquelas que aprenderam nossos nomes...
essas... não vão voltar!

Voltarão as espessas madressilvas
de teu jardim as cercas a escalar,
e novamente à tarde, ainda mais belas,
suas flores vão lançar.

Mas aquelas molhadas pelo orvalho,
cujas gotas olhávamos brilhar
e cair como lágrimas do dia...
essas... não vão voltar!

Voltarão, sim, do amor em teus ouvidos
as palavras ardentes a soar;
teu coração, de seu profundo sono,
talvez despertará.

Mas mudo e extasiado e de joelhos,
como se adora a Deus frente ao altar,
como te amei um dia... ; desengana-te:
assim... não vão te amar!

Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870)


Descobri esse poema na edição 8 da Revista Palavra, dos caras da Le Monde Diplomatique Brasil. Vale a pena checar o que eles estão publicando.

12/11/2007

Segunda Pessoa

Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.

Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.

Fernando Pessoa - 1931

Esse é o primeiro post de Segunda Pessoa, um espaço
semanal para a poesia de Fernando Pessoa.

29/07/2007

Ring of Fire


Ray Charles interpretando Ring of Fire
Essa música foi composta por June Carter e eternizada por Johnny Cash.
Uma obra prima de simplicidade.
Abaixo, o próprio Johnny Cash interpretando. Genial.


25/06/2007

Elegia

Deixa que minha mão errante adentre
Em cima, em baixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la

Caetano Veloso

07/05/2007

LXVI

No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.


Pablo Neruda, Cien sonetos de amor

03/05/2007

Poema 20

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche esta estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.


Pablo Neruda, Veinte poemas de amor y una canción desesperada, 1924.

Então... Está em espanhol, mas acho que vale a pena tentar ler assim mesmo. Esse poema com certeza perde muito de sua beleza se mudar o som que ele tem, o ritmo. E sempre serve de alguma prática! ;)
Pra quem se interessar mais em Neruda, nesse site da Universidad de Chile têm muitas obras dele disponibilizadas e várias informações sobre o poeta.

01/05/2007

Vinha elegante [...]

Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso,
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.

No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...

No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura - ou da água.

Fernando Pessoa, 14/8/1932.