12/01/10

Quatro nomes tem o vento...

Quatro nomes tem o vento na minha terra
e nenhum deles diz a verdade.
Os campos vazios e os animais imóveis,
estes, sim, sabem com certeza.
A solidão é indefinível e paradoxal
quando se percebe sua natureza.
Nas grutas do cotidiano espreita, lento,
um sussurro de solidariedade.

17/12/09

A depressão...

A depressão come o bolo pelas beiradas
desenhando caminhos vazios na carne.
Ouço latidos e motores na noite desesperada
e sinto saudade das meigas canções da tarde.
Minha vista está cansada
e ainda sou muito novo.

O mundo pesa na balança dos mercados
enquanto todos correm para mover as turbinas.
Me pergunto quantos se lembram dos gemidos dos arados.
Os cães e o asfalto sussurram: injustiça!
Sinto que estou marcado
e ainda sou muito novo.

Ecos de acordes soam no ar morno
e minhas lembranças recentes são apagadas.
Dias passam em seu eterno retorno
e ainda sou muito novo.

15/06/09

No aguardo

Uma sala de espera
antes de muitas escolhas
sendo que nenhuma é certa:
talvez sejam masmorras
ou estradas ao pôr-do-sol.
Tudo depende das escolhas
que um faz quando está só
enquanto frio lhe come os dedos.
No fim, tudo é bem óbvio,
desde as escolhas até os segredos.
A sala de espera é bastante fria
e sua metáfora é o medo,
lugar desagradável para passar os dias.
O tempo passa depressa
mas demora a alegria.
As escolhas ainda são incertas
e amanhã não é um novo dia.

31/05/09

Sobre a coerência

Na noite azul do porto abandonado, dois cães, um preto e o outro branco, olhavam para o mar. Nenhum deles sabia nadar, e isso os unia. O cachorro branco uivou, triste com a imensidão do mar e sua impotência, e o outro rapidamente o mordeu na coxa. O cão branco, chateado e dolorido, perguntou então o porquê do amigo ter feito isso. O outro respondeu, sem tirar os olhos das ondas escuras:

- Não interrompa o silêncio com futilidades.

O cachorro branco ensaiou uma resposta, mas nenhuma lhe pareceu boa o suficiente. O mar, em resposta, rugiu rindo estrondosamente, e, instantaneamente, o cão preto mergulhou nas águas latindo enfurecido.

02/02/09

Da sabedoria

"Sabedoria profunda
é coisa bem escondida.
É preciso cavar muito,
se sujar na terra viva,
pois, quando parece presa,
ela foge, a maldita."

Por isso, se cava o vento
se se procura por ela.
Pessoas ficam chamando,
debruçadas nas janelas...
Melhor seria se fossem
buscá-la, batendo perna.

Pois não se cansariam:
não está tão longe assim.
Ouvi dizer que é arisca,
mas gosta de um botequim,
pois lá estão terra e vento,
histórias, gentes e afins.

Sabedoria profunda
é coisa que não se busca,
mas que se vive em instanttes,
como quando chega a chuva.
Saber é ter uma certeza:
tudo, tudo mesmo, muda.

Muda o botequim, a pá,
a terra, a gente, o vento.
A morte fica parada
com medo do movimento,
e nós sentimos e fazemos
a vida a cada momento.

28/01/09

O grito

Começa na ponta dos dedos do pé
e sobe queimando tudo pelo caminho.
No estômago ganha forças
e liberta-se do homem pela boca.

Esse imenso grito intraduzível
que arde na ponta dos dedos da minha mão
faz a conformidade impossível
e me une com cada um dos meus irmãos.

Arranca de mim o medo cotidiano
e põe sob meu travesseiro uma promessa.

Seria delírio se não fosse tão humano,
esse grito que toda noite me desperta.
Mil vozes anônimas me acompanham.

Por todo o tempo e o espaço, bocas murmuram
esse mesmo rugido: estão chamando.
Reunidas pelo feitiço do desespero, conjuram.

O fogo de meus cabelos e as chamas de meus olhos
iluminam o palco onde ecoa o grito.
Um espelho me fita entre assustado e sóbrio.

O silêncio me acolhe: não estou sozinho.

27/01/09

Canção do abandono

Pobre mar, sem você para lhe dar ondas
que carreguem as espumas do tempo.
Ficou só, a reclamar em gritos longos
sua presença e seu pensamento.
Partiu, o que fazer? Ela não vai voltar,
nada faz voltar as areias do tempo.
Saudade é o que sobra, pobre mar,
por mais poderoso que você seja.
O adeus é irreversível, amigo mar,
e essa dor em nosso peito queima.
Sobram motivos, todos pertinentes,
mas não, ela não mais nos deseja.
Por ela, todos as ilhas, os continentes.
Por você, morreríamos ambos,
mas você não voltaria, simplesmente.
Passarão milênios, séculos e anos
sem que uma onda risque a imensidão:
é nosso luto, nosso último canto
por você, tão triste é nossa solidão.
Nada adianta, tudo acabou num suspiro.
O mar chorando pelo mundo em vão
e eu, no meu quarto, sinto frio
mesmo sendo verão. A chuva me lava
e, companheira, me guarda.
O que resta de você são versos e praias.