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21/10/2010

Dois faxineiros

Ele entrou no armazém da limpeza, indo buscar algum produto qualquer que precisava para o trabalho. Do lado de fora, o colega espera enquanto mexe lentamente o café com um pedaco de plástico desses que se dá para as pessoas mexerem o café, dentro de um outro plástico tansparente. É esquisito que facam isso, o colega pensa enquanto termina de mexer o café.

Onde está o maldito produto de limpeza? Onde está, no meio de todas essas coisas organizadas em prateleiras, caixas e pequenos conteineres de atacado? Cansa procurar, ele já fez isso milhões de vezes nas noites chatas e repetitivas de seu trabalho, turno do comeco da madrugada. No entanto, continua sem decorar as posicões dos diferentes produtos. É uma pequena batalha pessoal entre ele e o ser indefinido que organiza esse armazém, que prova-se ser um adversário admirável, de fato. Às vezes se repete, outras, não. O aleatório reina na interacão entre ele e essa pessoa que o atormenta indiretamente.

O colega olha para ele desde o lado de fora do armazém, esperando e tomando seu café. Bom café turco, a borra amarga e saborosa. Ele, o colega, despreza, profundamente, o café fraco que esses dinamarqueses fazem. Café aguado, sem sabor, sem pegada. Nem vale a pena por acucar, de tão sem graca, na verdade. Ele olha o outro, dentro do armazém, sem nem pensar em porque demora tanto. Outras coisas o preocupam, coisas sobre essa terra fria.

O produto não facilita a busca, está dentro de uma embalagem pequena, em um andar razoavelmente alto da prateleira, quieto, também esperando. Ele olha cada caixa, tentando decifrar os rótulos em negro sobre o papelão bege. Ele ainda é razoavelmente novo por aqui e a língua não facilita: a escrita é completamente diferente da fala e a fala…A fala não ajuda também - seus sons guturais, suaves e mastigados, são, em boa medida, incompreensíveis. As palavras do rótulo dancam, rindo dele, de sua incompreensão: ele não é daqui, nunca será, é o que os rótulos querem fazê-lo acreditar.

O outro termina o café e joga o copo descartável em uma das latas de lixo que ele e o colega acabaram de limpar. Seu turno está perto do fim: essa tarefa de agora é a última dele e a primeira do outro. Ele precisa do produto para terminá-la e ir para casa, depois de Nørrebro, e fala para o outro exatametne isso, mas sem pressioná-lo demais. Não seria bom, ele sabe que o outro está trriste e estressado, teve problemas com a burocracia outro dia, mas isso se resolve, ele sabe bem disso: nasceu aqui, tem fé no jeito certo das coisas acontecerem e se organizarem. O que ele não entende às vezes é como o outro demora tanto para entender onde ele, em seu turno da tarde, pôs os produtos no armazém. Explica em cinco minutos ao outro onde está o produto e como está organizado o armazém, e ambos trancam o armazém e vão limpar o refeitório da universidade. O outro, sorrateiramente, olha mais uma vez para a porta do armazém e repete para si mesmo a explicacão sobre o lugar certo de cada produto: ele vai se lembrar da próxima vez.

13/10/2010

Manhã de ressaca

A cidade não existe como a conhecemos, mas como a imaginamos nas escuridões (nem tão escondidas) das manhãs perdidas no sono da ressaca. Sempre imagino a cidade sorrindo seu sorriso mais puro nessas mesmas manhãs. O Sol brilha claro e azul, mas não conheco a sua cor, pois meus olhos fechados ainda me prendem à terra do sono. Quem dera a manhã ser mais amiga e me chamar para curtir essa raridade que é um dia feliz de fato? Por que a noite que me vê afundar em embriaguez sempre dá um jeito de avisar a manhã seguinte para me evitar?

31/05/2009

Sobre a coerência

Na noite azul do porto abandonado, dois cães, um preto e o outro branco, olhavam para o mar. Nenhum deles sabia nadar, e isso os unia. O cachorro branco uivou, triste com a imensidão do mar e sua impotência, e o outro rapidamente o mordeu na coxa. O cão branco, chateado e dolorido, perguntou então o porquê do amigo ter feito isso. O outro respondeu, sem tirar os olhos das ondas escuras:

- Não interrompa o silêncio com futilidades.

O cachorro branco ensaiou uma resposta, mas nenhuma lhe pareceu boa o suficiente. O mar, em resposta, rugiu rindo estrondosamente, e, instantaneamente, o cão preto mergulhou nas águas latindo enfurecido.

04/04/2008

O doce embalo da nicotina

A vida é muito complicada, é o que pensava o homem de uniforme vermelho. Na espera pela troca de turnos da loja de conveniências onde trabalhava, ele ansiava fumar. Sair da loja à noite era a única parte boa de seu trabalho. A noite fria na rua, o ar penetrando pelas brechas do agasalho e varrendo a fumaça quente do cigarro para longe. Nesses momentos quase compensava viver, ele sentia.

O mais complexo da vida são as pequenas coisas que exigem nossa atenção: as etiquetas de rastreamento, os protocolos do caixa, os jogos pessoais entre os funcionários... Ele não gostava dessas coisas: eram complicadas demais para ele.Para simplificar, o homem de uniforme vermelho roubava a cada quinze dias, às quinta-feiras, uma caixa de cigarros fortes, para fumar durante a noite. Tinha insônia e a fumaça o divertia em seu vôo visível pelas ruas vazias e soturnas.

No caminhar da volta, nada exigia sua atenção. Ele podia seguir em frente e se perder, que tanto fazia. A pequenez de sua cidade, como a de todas as cidades a noite, acolhia-o na certeza simples da fumaça e do caminho. Talvez não fosse nem uma questão da cidade em si, talvez o que o animava nessas voltas para casa fosse a certeza de se consumir, de gastar a vida que ansiava dentro de si mesmo, da maneira mais destrutiva possível, a mais egoísta e inútil. Fumar cigarros solitário na noite é o mais próximo que o homem de vermelho chega do niilismo.

O fogo que queima a ponta de seu cigarro não deixa margens à dúvida, pois deixa em brasa viva a verdade do tempo. O homem sofria, às vezes, pelo patético que era ter de roubar um símbolo, um auto-sacrifício. Não lhe era permitido se consumir à vontade, ser um hedonista. Tantas vezes ouvira sobre o imperativo da saúde, o último bem que os deuses podem nos tirar... Mentiras! Mas ele até gostava de mentiras, pois, ainda que parecessem complexas e intrincadas, elas continham em si um perfume falso, uma essência impotente e simples, como o fim de um cigarro.

04/02/2008

Um reflexo em um momento


O embrulho de meu tio chegou. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, com o passar dos anos, esse dia chegaria. Esse espelho velho, com borda de latão cheia de manchas, me acompanha desde pequeno, quando eu ainda vivia no sítio de minha vó. Lembro-me desse mistério de vidro e metal pendurado na parede do quarto do meu padrinho, que morava em um puxado que dava para o meu quarto. Meu padrinho era engraçado, vivia dizendo que aquele espelho era inútil e sujo. Eu nunca entendi por que ele fazia isso, insultar o objeto na parede.

Abro o pacote e vejo meu reflexo turvo no espelho. Fico espantado: a imagem está muito mais escura do que eu esperava. Sei que ela muda ano a ano, dia a dia, mas não pensava que estaria tão fosca. Talvez sejam as marcas da cidade grande, das preocupações e da euforia de tanta gente estranha junta e, ao mesmo tempo, distante. Mas não me arrependo de minhas escolhas. Sair de Votuporanga era necessário, eu não tinha aonde ir, onde aprender. Conforme eu virava um adolescente e, depois, um adulto, aquela vila e aquele sítio me sufocavam. Depois que meu padrinho morreu meu tio herdou o puxado e, junto com ele, o espelho de borda de latão.

Um homem do campo e um observador com visão para o futuro, esse era meu tio. Foi ele quem me estimulou a estudar e ir para a cidade, lutar por um lugar. Só se esqueceu de me dizer para ser feliz. Cada dia ele se levantava e olhava nesse espelho, que deixava sempre coberto. Entrevia pela porta do puxado o seu rosto antes de descobrí-lo: estava sempre pálido e mórbido. Tinha medo e eu sabia o porquê.

Meu padrinho, antes de morrer, me disse que aquele espelho era amaldiçoado. Eu estava só com ele em seu puxado. Meu padrinho, com olhos fixos no espelho, dizia que ele estava fosco, que ele não se via nas manchas do espelho. No mesmo dia, morreu. Meu tio não tardou a perceber do segredo de espelho. Ele entendeu.

O espelho em minha frente estava ficando sujo. Ou será que era meu reflexo? O tempo passou para mim também. Envelheci e mudei, tinha consciência disso. Meu tio morreu, o sítio ficou vazio. Os bens ficaram comigo e, entre eles, esse pedaço de vidro e latão. Fugi do sítio e venci, tenho meu lugar. Envelheci por isso, lutei. Não preciso de um objeto para lembrar-me de que vou morrer. Quebro o espelho de um só golpe. Por um momento, vejo meu padrinho e meu tio.

Vou à cozinha, pego uma pá e limpo os cacos de vidro do tapete. Misturadas com os pedaços do espelho, há lágrimas. Meu Deus, como passa o tempo!

Esse texto é uma redação da época do terceiro colegial, em 2004.
Fica aqui pra comemorar os 101 posts do blog. Valeu por lerem!

10/01/2008

Caderno de anjo

A garota que cuida do provador da loja espia um conhecido de seu irmão experimentar roupas e decide sorrir para ele na saída. Uma criança surda vê um homem disparar uma arma na noite. Folhas caem de uma árvore num parque distante, anunciando o frio. Uma senhora fecha seu punho e observa as veias que correm nas costas de sua mão. Elas pulsam normalmente, depois um pouco mais rápido. A namorada do garçom percebe que ama o faxineiro do bar e sente-se confusa pela primeira vez em muito tempo. Nenhuma formiga pica o homem triste deitado no gramado. Um garoto em um semáforo limpa um pára-brisa apenas porque sim. O motorista do carro sente-se culpado pelo vidro fechado e deixa o troco de seu almoço na caixinha dos funcionários do restaurante. Um caderno novo é inaugurado por um jovem que quer ser escritor. Enfim, uma orquídea abre uma nova flor vinte anos depois de ter sido dada de presente por um bebê de um ano de idade para sua mãe (iniciativa do pai).

11/11/2007

Hieróglifo

Ela tem uma tatuagem na nuca. É um nome ou apenas uma palavra, mas não consigo ler, o quarto está escuro demais. Os movimentos de seus cabelos atrapalham minha leitura. Parece até que foi escrita à caneta, mas a palavra não se borra ao meu toque, apesar do suor. Com algum incômodo, chego mais perto e tento ler, inutilmente. Não sei o que pensar disso, nem o que sentir.

De olhos fechados, tento esquecer, mas não adianta, o borrão dança na minha frente de qualquer jeito. Um fogo sobe pela minha espinha e sinto muita raiva. Minha respiração arde, meus dedos travam. Desce um choque pelo meu braço, ela grita algo incompreensível me pedindo para continuar. Sua respiração pesa, sua nuca queima nos meus olhos cada vez mais.

O arrepio no meu corpo cresce de intensidade junto com a raiva. Como nunca percebi aquilo antes? Minha raiva rapidamente vira força e força, movimento. Aperto as mãos tentando esquivar minha paranóia, ela agita seu corpo ao meu toque. A velocidade de meus movimentos me causa alguma dor, mas não posso parar, ela não me deixa. Sua respiração dita o ritmo de meus pensamentos. Toco seu rosto, ela chora e beija meus dedos.

Não vejo seu rosto mas sei que sorri. Minha garganta raspa em sons desesperados. Uma palavra desconhecida me faz querer morrer ali. Uma convulsão sobe pelo meu corpo, minha cabeça se joga para trás, meus dentes se apertam e ouço ecos de um gemido que se aproxima galopando na distância. Sinto todos seus músculos retesados, relaxando aos poucos, mas não posso parar. O fim só chega numa exaustão que gela meus nervos, apagando tudo menos a tatuagem.

Sinto o cheiro de seu cansaço com meu rosto próximo de seu pescoço. Ela dorme, mas o nome, ainda invisível, não me deixa acompanhá-la. Não fecho meus olhos, que se incomodam com seus cabelos, enquanto tento sentir algo. Palavras voam nas paredes do quarto e tremem. Espero algum tempo e a acordo com uma mordida leve, perguntando o que estava escrito em sua nuca. "Amor", ela murmura e volta a seu sono depois de me beijar.

Silêncio no quarto, ela dorme como um anjo inocente. Estou cansado, mas levanto e acendo um abajur. Nunca seria capaz de entender o que estava escrito, a tatuagem é um ideograma em tinta preta na sua pele clara. Toco sua nuca e apago a luz do quarto. Vou até a cozinha e acendo um cigarro, apesar de meu isqueiro quase não pegar, mesmo sendo novo. Acho que nunca vou entender o motivo. Afundando a cara nas minhas mãos, percebo que nunca entenderei o motivo, mas foda-se.

09/10/2007

Coadjuvante


Momentos antes de tudo, Daniel calmamente olhou para trás pelo retrovisor do banco de passageiro. Ele lembrava claramente disso, independente de todo o resto. No fundo, que diferença faz que ele não saiba o que foi o "tudo" que veio logo depois? Ninguém sabe, na verdade ninguém tem como saber, o quê aconteceu com ele. Mas pesava nele lembrar apenas desse antes impossível. Era impossível, pois como seria um antes sem um depois? Claro que existia o depois que era o presente de Daniel-lembrando, mas e aquele "depois" logo depois do "antes"? O "tudo"? Em que gaveta de seu criado-mudo de sanatório Daniel guardava essa informação?

Não adiantava se fixar em um ponto distante no horizonte pontilhado da rodovia naquela imagem da memória. Resposta nenhuma viria dali e Daniel tinha plena consciência disso. Ainda sentia as dores de sua tendinite na mão esquerda, como sempre sentira, característica perene. Olhava para seu corpo em busca de cicatrizes de alguma cirurgia de emergência ou, no mínimo, alguma pancada ou lesão nova. Estava igual ao de sempre, ao que tudo indicava. Os outros, seus semelhantes, passavam pelo seu quarto respeitando alguma distância, em uma estranha reverência espontânea, talvez uma admiração pelo acaso.

Daniel estava limitado a dois momentos: aquele antes imóvel de uma memória inexplicável e esse presente de espelho, circular. Não sabia e não se preocupava em saber sobre o contexto em que estava realmente ou em saber o que tinha acontecido logo depois, na verdade: um terrível evento, de qualquer maneira. Precisava desesperadamente conseguir projetar sua mente para aquele antes, para só então continuar em frente e ver o momento seguinte. Era totalmente incapaz de perceber a impossibilidade do que desejava, por mais que os outros, seus colegas, tentassem poupá-lo da decepção que sentiria. Afinal, era como eles e eles eram aquilo apenas: um antes vazio antes daquilo que realmente importava.

Ele sentado sob uma árvore, lutando contra o reencontrar desse carma, imitava um Buda fútil aos olhos de todos os outros. Descontínuo, buscava a seqüência do fio da meada perdido. As linhas de seu pensamento, presas em limites desconhecidos, externos a ele, naufragavam cada tentativa sua. Parecia buscar a continuação de sua história em uma história além, turva, sinuosa, grande. Os outros, seus fantasmas, com seus silêncios inexpressivos, cercavam Daniel, chamando-o para um corredor de entendimento comum, em uma espécie de ritual de iniciação, consenso. Ele se negava e persistia em sua busca pela compreensão de sua memória do antes, sozinho. Perguntava a si mesmo horas a fio os significados de cada elemento daquele fragmento de lembrança e não entendia.

Daniel estava preso à sua irrelevância e incoerência. Aos poucos acabou por perceber todo o peso da busca que realizava. Ele enfrentava o tempo e sua consciência, assim como a resistência invejosa dos outros, sempre distantes. Uma névoa desfocada de desatenção impedia que ele reconhecesse qualquer rosto neles. Os múltiplos braços hindus de Daniel encaixavam peças quebradas de um quebra-cabeça sem modelo ou figura. Ainda lembrava apenas de um antes inútil e um depois residual, mas agora, e essa percepção era interessante, tinha uma história, ainda que bizarra, de sua busca impossível. Confrontou a natureza dos outros, que era sua, com uma raiva muda em seu rosto. Então, no final do dia, com um salto, Daniel enfim acabou por esquecer do banco de passageiro e dos espelhos e foi viver sua vida em paz.

09/09/2007

tabacos

- desista, senhor akira... eles estão longes demais

mais dois tiros ressoaram na escuridão da velha estrada. filhos da puta. yuji virou-se e andou calmamente em direção à viatura, dando o aviso à central. eles seriam pegos cedo ou tarde, os filhos-da-puta. akira guardou sua arma com um suspiro e um olhar atravessado. fechou a porta da viatura fazendo barulho.

- corredores, sempre corredores... estou cansado deles! todos esses jovens! que merda

yuji nao respodeu à fumaça do cigarro na reclamação de akira; achava que aqueles cigarros de tabaco negro dele é que eram uma merda. yuji manobrou a viatura na direção contrária dos fugitivos e acelerou o carro pela estrada escura e deserta. tinha alguma pressa para voltar: emiko o esperava com um sorriso e uma reclamação no jantar de aniversário dos dois. outra discussão a caminho.

- eles serao pegos, senhor akira. está com calor? abra o vidro, o ar desse carro não funciona

- esse vento vai estragar meu cigarro.

o vento uivou pela janela, mais ainda quando algum carro cruzava o caminho na direção contrária. as cinzas do cigarro do detetive akira voavam direto em seu rosto, mas disso ele não reclamava. gostava até. yuji o observou por alguns breves momentos. um ringtone polifonico chamou a atenção de akira. com um apertar de dentes, yuji tirou uma das mãos do volante.

- emiko. sim, eu sei. estou na estrada velha, não vou demorar muito. eu sei que está tudo bem...

- tem rádio nesse carro?

- ... já chego. tchau, emiko.

yuji arrependeu-se de ligar o som da viatura; akira cantava baixo sucessos americanos do passado. emiko detestava cheiro de cigarro, mas yuji já tinha apertado o isqueiro do carro. akira observava pelo canto dos olhos cada movimento do colega mais jovem.

- tudo bem, senhor akira?

- tudo bem você?

yuji olhou fundo os óculos opacos de akira. o som dos carros no sentido contrário aumentou de frequência. uma chamada da central alertava para dois fugitivos na velha estrada. akira coçou o joelho enquanto yuji tragava seu tabaco rúbio. um semáforo aproximou-se junto com a cidade.

- é minha última chamada hoje, senhor

- e você quer saber onde me deixar?

- é o procedimento.

akira engasgou um riso olhando para o jovem colega. esse filho-da-puta também deve ser um bom corredor. yuji pensou em emiko trocando de música no aparelho de som. velho inutil. o detetive subiu o vidro e arrumou seu cabelo. apertou os olhos lendo os letreiros da cidade.

- me larga em qualquer lugar. aquela esquina.

o cigarro de yuji sujou o cinzeiro da viatura. virou o volante com as duas mãos. akira abriu a porta sutil, saindo da viatura com leveza, impressionando yuji. uma reverência do jovem e o som da porta fechando abandonam akira na calçada em frente ao bar. velho inutil. o ringtone do celular reclamou novamente. emiko e o jantar frio. akira virou-se para a rua e a atravessou sem olhar para o tráfego, quase correndo.

08/09/2007

carta para Mi e Dani

quatro para meio-dia

Um dia eu estava andando em um deserto, daqueles tipo Saara, sozinho, e senti que ia morrer de sede...

Entrei em desespero em busca de água, procurei por dois anos seguidos e então achei um lago no meu bolso. Pus ele no chão e ele criou uma superfície extensa e calma como um espelho, onde eu via o céu. Adorei o lago (no sentido de idolatrar) e quis beber de sua água. Fui sem receio, mas, prestes a tocar no lago, me perguntei se devia acabar com a calma e com a imagem do céu no lago. Passei mais dois anos pensando. Então uma borboleta saiu de meu dedo indicador que apontava para o céu e voou até ele. Fiquei olhando. Quando ela pousou no céu nele criaram-se ondas, como se alguém tivesse jogado uma pedra num lago.

Mas o lago continuou imóvel. Então eu percebi que estava com sede de novo (de novo não, ainda...) e bebi da água do lago. Assim que bebi, o lago aumentou em tamanho e, com uma onda, me engoliu. Comecei a me afogar e a amaldiçoar a minha sede Já tinha afundado muito no lago quando olhei para cima e vi o céu... A água fria me embebia, mas eu não me afogava, na verdade. Comecei a perder os sentidos... Fechei os olhos.

Quando abri meus olhos de novo, vi o céu, mas eu estava deitado no quintal de casa. Estranho. Sentia-me como que afogado, me embebia de ar. Lembrei: naquela vida, eu estava apaixonado, mas sentia tristeza. Nessa hora uma borboleta saiu de uma flor e pousou no céu, mas ele não tremeu.

23/07/2007

Corrida de touros

Um touro azul e preto corria pela rua da minha casa, gritando meu nome e bufando nuvens de sangue. Eu corria dele, tentando achar um balde com água para apagar o fogo que queimava seus chifres, em duas bolas de pano e gordura amarradas lá por algum demônio. Minhas mãos não suavam e meu respirar era tranqüilo, apesar do medo. Afinal, isso não era nada de novo para mim: por mais de 20 anos eu fui o touro que corria pela minha rua. Conhecia muito bem cada etapa da derrota do animal-monstro, como um coroinha ateu sabe uma cartilha decorada de catecismo.

O demônio nunca cansa, ele finge e pára, pensando irracionalmente em seus novos passos. Essa é a hora mais perigosa para quem corre dele (eu, no momento); é aí que ele decide o que vai fazer e, na velocidade de um raio, o faz. Foi assim quando eu-touro matei pisoteada toda uma fileira de gatos que doíam na minha memória. Foi assim também quando queimei com meus chifres de fogo um amor que não funcionou, acabando com ele naquela chama mista de pano e gordura. Quando matei com um par de patadas uma montanha incompreensível de vivências que me alimentaram quando pequeno. Mistérios.

O som das patas no asfalto da rua e o som do bufar que antecede o ataque são os códigos para quem corre. Quando era touro, nunca imaginei que fosse tão difícil ser quem corre dele. Hoje, que sou o eu-corredor, tenho certeza de que essa é uma tarefa ingrata. Mas também sei que não há nada de justo no espetáculo da rua, basta olhar para os pequenos olhos do monstro, afogados em reflexos de chamas.

Corria tanto, fugindo do touro de fogo da minha rua, que nem percebia minhas pernas desmanchando-se em dores e fadiga. Quando virei a esquina da cidade, deixando para trás meu passado, elas pararam de funcionar e afundei meu rosto nos pedregulhos que circundam todas as cidades. As feridas que a brita abriu não doíam e nem deixavam cicatrizes, apesar do sangue que brotava de minha pele, mas coçavam num ardido-queimadura de alergia.

O touro estava longe, mas senti um grande calor dentro de mim. Senti sede, muita sede, e comecei a correr novamente, com um fôlego novo, sem saber o que buscava nas periferias da minha cidade, igual a todas as cidades. Virando esquinas que acabam em descampados encontrei uma velha caixa d'água, com sua estrutura de ferro enferrujado. Parei, bufei e arremeti: uma investida e a água transbordava, torta, pelo chão. Afoguei meu rosto naquela água suja e senti minha sede morrer.

Na distância, as casas da minha rua gritavam, em uníssono, junto com os gatos mortos, o amor que não funcionou e a montanha de vivências, um sonoro e poderoso Olé!. Andorinhas distantes acenavam com lenços brancos demonstrando sua satisfação. Trôpego, em silêncio, senti dó de nós dois enquanto me levantava, orgulhoso pela nossa performance. Um touro jazia morto dentro de mim, desaparecido da minha rua, com chamas apagadas nos chifres, pronto para ser dividido como mera carne.

Não consigo explicar agora, mas, quando o touro era eu, quem afogava minha chama se na solidão da minha rua não havia quem corresse de minhas investidas? Estou confuso e passo a pergunta à platéia da corrida de touros, mas não ouço resposta, somente sons de desaprovação por tamanha falta de claridade, coerência e qualquer sentido. E me vem na cabeça uma só resposta: é apenas a vida.

25/05/2007

Em uma pia branca [...]

Em uma pia branca, gotas negras criam desenhos como sardas. Um forte cheiro de água sanitária emerge daquela fotografia. Tomando fôlego outra vez, mergulho naquela imagem. Sinto na ponta dos dedos o viscoso das gotas e o frio sepulcral da cerâmica. O mundo preto e branco da fotografia é feito de tons de cinza, e assim é a vida. Em um mundo de vida e morte, o estar vivo nada mais é do que morrer aos poucos, envelhecer a luz em ferrugem escura, sangrando diferentes matizes. A grande esperança é de que, no mínimo, a foto fique boa e bem guardada na memória de alguém. Quem sabe viver para ter filhos um dia e desenhar essa lembrança na carne da terra não seja nada mais do que essa busca. Mas fotos de lápide compradas com sacrifício, com seu risonho ar de já avisei, não são bonitas. Preciso de ar, estou fraco neste cemitério que resgatei da memória de alguém!

Tiro minha cabeça de dentro da pia suja de gotas negras e abro a torneira. O ar está morto como a cerâmica, meu corpo ofegante. É o medo de não sair, de descobrir algum sentido. Enquanto a lógica formal ou dialética ou qualquer outra forma de lógica já ou a ser catalogada não me enquadrar, estou seguro. Estou a salvo de me tornar nada pois sou inexplicável. Minhas mãos estão mergulhadas na água da pia. Ninguém pode me entender, e ninguém deveria querer, ou quer. Como os grãos ásperos de uma lâmina velha, não sigo o fio. Lâminas cegas são amoladas, pessoas também. Sou jovem e ainda afiado, não tanto quanto deveria ser, mas sei onde ferir. A navalha sangrenta é rápida em seu trabalho, mas demora a ser limpa, e isso incomoda. O cheiro de água sanitária torna-se cada vez mais denso. Sinto-me exausto.

Caio em câmera lenta, mãos e cabeça molhadas, azulejo frio. Vinte centímetros: começo a girar sobre meu eixo. Meio metro: sinto a escuridão e o choque térmico se aproximarem. Toco o chão num baque seco. Minha cabeça dói e a dor, como uma onda de choque, espalha-se pelo meu corpo. De repente, percebo que não estou só nessa desolação. Olho no fundo dos seus olhos impacientes e digo a você, com uma imbecil voz de desespero, que não vou demorar muito. Você não fala nada. Sinto inveja: quem dera fosse eu tão frio assim! Tudo seria tão mais fácil. Odeio supor e imaginar como as coisas teriam sido, mas parece até inevitável fazê-lo. Por dois segundos tudo passa rápido demais. Tudo aquilo que teria sido mais fácil. Minha mente volta ao banheiro.

Seu toque é áspero como seu nome, em contraste com a lisura branca do chão do banheiro. Odeio você por não me deixar só. Sua força é constante e rápida, sou arrastado pelos azulejos. Ainda sinto o cheiro de água sanitária, a pia suja foge de mim como eu tentava fugir de você, mas agora não fujo mais. Estou ainda mais fraco do que no cemitério. Tudo se esvai ao seu toque.

18/05/2007

Despedida de sonho

- Quer ajuda com essa caixa?
- Não precisa, ela tá leve. Pega a fita durex ali perto da porta?
- Onde? Ah! Tá, pera um pouco.

Ela continuava empacotando porta-retratos e cadernos de antigas contas conjuntas. Não mudava nada o fato dele estar ali ao lado dela, como sempre esteve. Ela não via o olhar de garoto assustado dele pedindo uma milionésima chance e, mesmo que visse, talvez isso não importasse também.

- Quanto tempo de viagem dá até lá?
- Não muito. Acho que umas três, quatro horas. Por quê?
- Não, nada; perguntei por perguntar mesmo...
- Pronto! Acabei essa daqui, agora só faltam mais três.

Ele já não sentia os dedos de tanto apertar as mãos de nervoso e olhava para as caixas com a certeza de que estava perdido. Ela caminhou diligente em direção ao amontoado de pequenas lembranças do outro lado da sala, com o espírito leve de quem organiza as coisas. Sem perceber, ele acompanhou com dois passos tímidos o deslocamento dela e trombou desajeitado em duas caixas.

- Puta merda! Desculpa, eu nem percebi as caixas aqui. Eu...
- Fica tranqüilo, não tem problema. Você acha que quebrou alguma coisa?
- Não, acho que não. Foi só uma batidinha de leve.

Engoliu em seco enquanto buscava o que dizer a ela, que já prestava atenção no montinho de bugigangas mais próximo. Ela não o condenava; não fazia o menor sentido tentar culpa-lo por erros inexistentes ou naturais, e ele também sabia disso. Não sentia raiva dela; na verdade, quase a entendia. Talvez em outro momento ele tivesse feito isso.

- Ai! Esqueci uma foto na geladeira! Já volto!

Ela passou por ele com passos delicados de bailarina, mais bonita do que nunca. Ele sentiu um aperto daqueles que anunciam o tanto que iremos lembrar de um momento para o resto de nossas vidas. No fundo, ela também sentia, mas isso era normal.

- Helena!

Ela virou o rosto ao ser chamada em um ritmo lento, quase uma câmera lenta de propaganda de xampu. Pronto: estava feita uma fotografia que ele iria guardar dentro de si, embrulhada em uma caixa de papelão barata, presa carinhosamente com fita durex. Amanhã ele iria, como ela, abrir suas caixas também, e isso foi o suficiente para ele.

Os dois se olharam por alguns segundos. Ninguém disse nada e também não era preciso. O que pudesse complicar eles deixaram para depois: não devia ser nenhum fim de mundo. Naquela sala, naquele dia, para acabar essa história, bastou um sincero e silencioso sorriso dos dois.

14/05/2007

Kikí

Vestido com um casaco vermelho de corte agressivo e sensual, ele entrou em seu quarto. Sentado na cama, tirou seus grandes brincos de argola, com alguma calma, mas apenas a necessária. Virado em sua cama, ele começou a falar sozinho, um pouco alto. Assim que saía de sua boca, cada palavra, uma a uma, perdia qualquer significado. Suas mãos tremiam, algum suor começou a escorrer de seu rosto e sentiu falta de ar. Percebeu, iluminado pela luz fraca do neon do hotel vizinho, que seu relógio estava quebrado. Quase foi engraçada para ele a idéia de que fossem para sempre quatro horas, mas não conseguiu rir, pois ainda falava. Calou-se e lembrou de tirar os apertados sapatos de salto fino. Deitado do jeito que estava, não conseguia desatar o tosco nó que o prendia aos sapatos. Sentiu medo de estar perdendo o controle. Tudo dependia dele ficar livre daquilo, mas claro que isso é um exagero. Ele conseguiu soltar o fio, tossiu duas vezes e depois dormiu. Só foi acordar com o Sol batendo forte nos seus pés. Ainda eram quatro horas quando acordou e sentiu que, mesmo que ainda fossem quatro horas, tanto fazia.

13/05/2007

Desenho

Meu chapéu azul chocava a todos naquele tribunal. A juíza olhava, o guarda olhava, o júri olhava e até mesmo o ventilador de teto cambaleante prestava atenção no meu chapéu. Parece até que ninguém nunca viu um homem de chapéu azul sentado calmamente, desenhando. Meu advogado, defensor público, achava engraçada minha aparência, tenho certeza disso hoje. Isso até que devia ser bom: afinal, assim ele talvez prestasse mais atenção à sua tarefa de tentar me salvar. Não que importasse alguma coisa para mim ou para ele, mas vai saber: a justiça muitas vezes comete atos falhos e perdoa por erro, não por piedosa majestade.

Doze cães de aluguel, raivosos e babando em sua condição de cidadãos comuns convocados, me avaliavam por coisas que eles nunca viram, que não os afetaram e, o que é pior, nem sequer os interessavam. Quero que eles se fodam, hoje mais do que naquele dia. Lá eles no mínimo serviam pra alguma coisa que me entretinha: eram bons modelos com seus olhares estupefatos. Parecia até que eles não se identificavam comigo, ledo engano deles. A minha cara sempre foi um nítido espelho, emoldurado no dia do juízo por um belo chapéu-coco azul.

Já havia dado meus depoimentos e aguardava a juíza ler a sentença, que ainda passava de mão em mão pelos jurados caninos. Eles queriam ter feito cada uma das coisas que fiz, tinha certeza disso. Não conheço um cachorro que seja que não goste de comer carne mal-passada, com algum sangue ainda preso nas veias do corte, ou que não gostasse de esmagar uma presa entre seus dentes. Olhava para meu advogado apreensivo observando, ao som do ventilador de teto dançante, os movimentos em câmera lenta do júri. Ele era tão novinho, devia ter a mesma idade que eu naqueles dias. Bem, ainda deve ter a mesma idade que eu, na verdade.

- Tá chegando a hora do almoço, Luizinho – o carcereiro novato tenta disfarçar seu nervosismo puxando alguma conversa comigo.
- Eu sei olhar relógio, não me enche – respondo, desconfortável: odeio ser interrompido enquanto desenho uma lembrança qualquer.

Não entendi nada da sentença que ela leu, mas sabia muito bem o quê aquilo estava marcando na minha história. Meu advogado não gostou do que ouviu, quis reclamar, mas fiz um sinal pra ele parar quieto no lugar. Aquele momento era meu, um falso gran finale para uma platéia de invejosos. Todos ali conheciam bem o prazer da boca cheia, da fome saciada, e extraíam sua satisfação de mim, da culpa que inventavam para mim. Sou um estrangeiro na terra deles, mesmo que esteja ilhado aqui fazendo turismo por entre dentes de ferro.

Naquele momento lá atrás, fiquei de pé com meu chapéu azul encarando a juíza. Foi generosidade dela me dar aqueles segundos de suspensão antes que começasse meu novo fim. Deixei o desenho que fazia em cima da mesa, um pouco para o lado do advogado, para que ele o levasse de lembrança: gosto de dar presentes às pessoas. Olhei para os outros, que me olhavam, também esperando algo. Pensei em rir, mas não fazia sentido, em ser ainda mais sincero, mas não adiantava, em ficar quieto, mas era um desperdício de tensão, e em mais mil opções. Acabaram meus segundos e fui levado do tribunal. Não resisti à beleza absurda do momento e, ao passar pelo canil, larguei, para grande susto dos meus colegas animais do júri, meu chapéu-coco azul dentro de seu cercado. Aos poucos, à distância, ouvia uivos de vencedores tapados, embriagados de seu poder, mordendo o próprio rabo.

11/05/2007

O cara

Lucas sabia das coisas, isso era um fato. E era assim mesmo, querendo ou não, ele sabia das coisas, das manhas, pode botar fé. Meio que dominava todo tipo de jogo que pode existir entre pessoas. Conquista, amizade, conflito, discurso, boato, indiretas, o que fosse. Claro que existem muitos como Lucas no mundo, todos conhecem no mínimo um, mas o que chamava a atenção para o seu caso é que Lucas era, apesar de seu incrível talento, um mala, chato de verdade.

Nem era uma questão de arrogância ou coisa assim. Ele sabia disso e até se esforçava em ser legal e tal, mas não saía cem por cento. Quando entrava em um ambiente as pessoas ficavam meio incomodadas, pois, mesmo sendo um chato, ele dominava. Não que virasse o centro das atenções, monopolizasse ou algo assim. Simplesmente todos sentiam na hora que ele sabia das coisas, mesmo que nunca tivesse falado com ninguém do lugar. Ninguém conseguia também explicar porquê o achavam chato, mas era uma unanimidade. Na verdade, ninguém parava muito para pensar no porquê, pois todos só pensavam em como um cara mala como aquele conseguia saber tanto das coisas.

Ser chato complicava as coisas para o Lucas, mas ele sempre sabia como dar um jeito. Um pouco de atenção a mais aqui, uma pergunta inteligente ali, uma piada irresistível aqui, um olhar que diz tudo ali. O cara era, com o perdão da palavra, foda. E isso fazia dele mais chato ainda! É só parar para pensar um pouco: ele sempre acertava, mandava bem mesmo, sem ser arrogante ou forçar a barra, discreto e indiscreto nas horas certas, e, mesmo assim, continuava sendo mala. Parece provocação, fala a verdade. Por conta disso, Lucas era aquele cara que todos torcem para que não apareça na festa, mas que faz muita falta se não vai, entende?

Lucas não era egoísta, não ficava montando banca para seu ego. Ele mandava bem para o coletivo, que nem jogador de futebol bom faz. Era só chegar que agitava tudo e a noite – ou o dia, tanto fazia – mudava na hora. As coisas começavam a dar certo, a conversa funcionava, os olhares tinham resposta, a cerveja gelava, o fiapo de carne saía do meio dos dentes, o trabalho ficava leve, era lindo. Quase exagerei agora, mas era nesse nível, parecia mágica mesmo. E tudo isso meio que emanando daquele carinha mala ali no canto. Ele realmente merecia o respeito velado que tinha de todos, querendo ou não.

O problema de Lucas não era seu tom de voz ou sua cara ou seu jeito ou qualquer outra coisa em particular. Tudo tinha um jeito com ele, sabe? Aliás, tudo tem um jeito, no final, mesmo que seja um jeito meio ruim. Até o fato do cara ser chato tinha um jeito. Incrível e incrivelmente irritante isso, não? Pois é. Bem, também tem coisas que não tem muito jeito, a não ser o tempo passar e a gente se acostumar. Digo isso porque teve um dia em que Lucas simplesmente desapareceu. Do nada, ninguém mais o viu ou teve qualquer tipo de notícia. Aquilo foi realmente muito estranho, não deu para entender. Ficou todo mundo aqui, normal, sem muitos dramas, mas sem ele, entende?

E tudo ficou até mais complexo sem o Lucas do que já era com ele. Esse mundo é muito louco e, agora, um pouco mais chato também. Parece até que o Lucas largou sua chatice no mundo e virou pó, sabe? As coisas continuam aí, como sempre, mas agora faz tempo que não aparece alguém que manje delas de verdade como Lucas manjava. Ele era mala, mas era foda – perdão pela palavra novamente. Engraçado isso tudo, na verdade: o que mais irrita todo mundo nessa história toda do Lucas é ter que sentir essa saudade daquele filho-da-puta!

08/05/2007

Encontro na alameda de figueiras

Sem voz, ele caminhava por uma alameda de figueiras, sozinho. O dia já ia tarde e não fazia o menor sentido andar tentando se equilibrar em raízes tão irregulares quanto as das figueiras. Parecia não se importar, na verdade. Avançava lentamente, tropeçando algumas vezes, sem perceber que sujava a barra de sua calça preta com o pó vermelho-alaranjado que cobria a paisagem.

Alguns pássaros passavam por aquela alameda. Ele chegou a um banco na beira do caminho e sentou-se de leve, como um amante que aguarda. Estava pronto e aquele era o lugar combinado. Fazia tanto tempo que não se viam que ele se perguntava se ela o reconheceria agora, mas, na verdade, temia o contrário. Remoía seu nome como um mantra enquanto os pássaros o distraíam superficialmente.

Resolveu assobiar para passar o tempo, como costumava fazer antigamente. Antigamente. Essa era uma palavra que ele nunca imaginou usar para definir qualquer momento de sua vida e, no entanto, ali estava ele assobiando como antigamente. Onde estaria ela? Não conseguia mais criar uma imagem dela a que pudesse se apegar, essa era a verdade. Assobiou mais alto e sua garganta machucada doeu um pouco.

Olhava para o caminho que seguia na direção oposta da qual tinha vindo. Estava bastante atento a qualquer sinal de movimento e a miragem dela o espreitava na distância enquanto o dia acabava de vez. Será que ela ainda lembrava do combinado? A alameda lembrava, o banco lembrava, o pó vermelho lembrava. Ele sabia claramente que só faltava reconhece-la naquele começo de noite que tudo estaria acabado. Para além desse encontro, tudo era certo, estava acertado com muita antecedência, era a natureza das coisas.

Os pássaros foram se calando pouco a pouco e as raízes das figueiras tomaram contornos surreais um tanto quanto assustadores. A falta de luz cansava sua vista e aumentava sua ansiedade, mas sabia aparentar calma bem para quando ela chegasse. No entanto, ainda lembrava claramente dos olhos de fogo dela atravessando sua mente expondo cada segredo seu e isso voltou a inquieta-lo. Batia os dedos ritmicamente nas pernas da calça acompanhando sua música nervosa.

Na distância escura, uma ponta de claridade sobrenatural se aproximava. Assim que a percebeu, ele sentou-se mais ereto no banco. Era ela, afinal, quem mais poderia ser? Aquela alameda era deles e ninguém se atreveria a andar sobre aquele caminho cheio de raízes sem enxergar. Só ela seria capaz disso, quase flutuando, com seus olhos de fogo. Parou de assobiar e engoliu em seco para lubrificar sua pouca voz e, pela primeira vez em todo esse tempo, ele se perguntou se estava apenas ansioso ou se sentia medo.

Ela parou de se aproximar a algumas figueiras de distância dele e parecia avaliar aquele homem sentado no banco. Ele não sabia dizer se aquela era realmente ela: não serviam de nada seus olhos cansados na noite agora adulta. Pareceu a ele que os pássaros voavam todos em fuga, mas não era verdade, eles estavam tranqüilos. A longa alameda de figueiras assistia os dois indo para o inevitável encontro tão esperado.

Ele abriu a boca para dizer o nome dela, mas não conseguiu falar. Ela perguntava muda, com seu olhar vazio, quem era aquele homem. Sabia que era ele, mas nada podia fazer enquanto ele não a chamasse pelo nome. Precisava dessa pequena prova: era parte essencial do combinado, uma espécie de assinatura em uma carta de amor, em um contrato ou em uma sentença.

Ele fechou os olhos para se concentrar e vinham na sua cabeça, em sucessão, imagens, canções, lembranças, mas nenhum nome. Como era isso possível se até agora ele o repetia e o desejava? A terrivelmente fria presença dela tornava tudo difícil e pesado: o peso de uma vida no seu ombro. Sentia que suas pernas não o agüentavam mais e, quando viu, estava apoiado de joelhos em uma raíz de figueira próxima. Ela sabia que era ele, ele tinha certeza disso enquanto sentia seu cheiro de flor de dama-da-noite e parafina. Por que ela não vinha até ele? Sentiu, como não sentia a muito tempo, a rejeição dos desprezados.

Lentamente, ela continuou o caminho que fazia, flutuando sobre as raízes, enquanto ele buscava entre os ecos de seus assobios a antiga melodia do seu nome. Ela de costas não iluminava mais o homem com seus mórbidos olhos de fogo, apenas pairava pálida em sua pouca luz. Ele estava agora ainda mais sozinho, com aquela presença que não podia se consumir ainda e que se tornava mais fraca. Na escuridão, apoiou suas mãos no chão de pó da alameda, engolindo em seco novamente.

Tinha de tentar alcançá-la. Alimentando-se desse pensamento, levantou-se e tentou correr em seu encalço, mas tropeçava em cada uma das raízes de figueira no caminho. Os pássaros nas árvores qause sentiram pena dele enquanto ela se afastava, rapidamente como só ela poderia, parecendo decepcionada. Ele caiu no chão e, cansado, não conseguiu se levantar por algum tempo. Sabia que demoraria muito até encontrá-la de novo, de acordo com o combinado, e não era ele quem escolheria a hora. Arrastando-se pelas raízes como um moribundo, chegou até o banco, com sua roupa, antes preta de luto, agora inteira suja de pó.

Viu ela, em um último momento antes de desaparecer na distância escura da alameda, virar-se para ele e gritar suavemente, com sua voz eternamente triste, seu nome indizível. Desapareceu com seu olhar de fogo, levando consigo o silêncio tumular do inexorável que trouxe consigo. Como que automaticamente, o nome começou a repetir-se em sua mente e ele chamou-a na escuridão, mesmo sem voz, mesmo que inútil. Um pássaro assustou-se com aquele grunhido seco que saía da boca do homem e voou para longe. Ela não podia ouvi-lo mais. Sentou-se no banco: agora só restava a ele esperar o sol nascer para poder sair da maldita alameda de figueiras, voltando para onde veio e esperar novamente.

Só então percebeu a sujeira em sua roupa e bateu no corpo para tirar o pó. Batia levemente, mas, aos poucos, suas mãos ficaram mais pesadas e começou a ferir-se, em um trânse desesperado. Repetia seu nome, desejando logo o final, mas agora só restava esperar amanhecer para então aguardar novamente o próximo encontro, inevitável. Precisava dela e a teria um dia, naturalmente, mas o homem de luto vermelho-alaranjado sentia-se abandonado. Aos poucos entendeu que, no mínimo, ela ainda lembrava dele e do combinado. Algum tempo depois, mais calmo e sentado no banco esperando o dia chegar, ouviu os pássaros voltarem a assobiar na distância.

01/05/2007

Em um bar do Cairo

Um homem com muitos braços realizava uma impossível coreografia no canto daquele bar do Cairo. Com um braço arrancava outro e o jogava no ar, esperando apenas o tempo dele cair em uma de suas mãos para continuar pulando no ritmo da canção que o acompanhava. Não era uma dança frenética, ainda que fosse desesperadora. Ás vezes, ele girava em torno de si mesmo enquanto um de seus braços voava. A cada nova mutilação, seu malabarismo ficava mais complexo e bonito. Os clientes do bar olhavam para ele hipnotizados, mas fingindo não se espantar, e o tempo passava.

A canção aumentava de ritmo e a percussão palpitava mais rapidamente naquele bar do Cairo. Poucos braços restavam ao grande malabarista e o chão do bar estava ficando escorregadio, molhado com seu sangue. Claro que isso só tornava a qualidade de sua coreografia ainda mais maravilhosa. O público acompanhava tudo com um interesse sincero emanando de seus olhares blasé. A fumaça dos chás e dos narguilês das mesas misturava-se com suores de expectativa.

Enfim, restaram apenas dois braços ao homem que, procurando com os olhos ao seu redor, foi até uma mesa vaga. A música parou. Sentou-se e continuou equilibrando seus estranhos malabares, enquanto fumava narguilê e tomava chá. Agora, atraindo a atenção de todo os clientes, inclusive o homem que tinha muitos braços, outro homem cruzou os véus azuis no canto do bar. Depois de uma reverência educada acenando com seus múltiplos braços a todos os presentes, ele começou sua impossível coreografia.

30/04/2007

A onda cinza e o céu de brigadeiro

Há tempos que esse azul infinito, céu de brigadeiro, tem me assombrado. Dia após dia, eu o vejo pela janela do meu quarto, meu pequeno reino. É nele que busco refúgio e consolo para tantas decepções, desilusões e medos. Quem me dera pudesse sair daqui e ir enfrentá-los! Minha doença me prende em meu pequeno quarto melhor do que mil correntes e algemas. Sinto dentro de mim, em meus sonhos, os ventos desse céu inalcançável.

Deitado em minha cama, meu catre, vejo as horas passarem nos matizes do azul do céu. Olhar pela janela tornou-se uma maneira de viver sem me preocupar com a realidade decadente à minha volta. O quarto, com suas estantes e porta-retratos empoeirados e sorridentes, é a sombra que restou de meus amores… A casa, que um dia foi uma dança bela e complexa de amigos, idéias e vida, cai hoje aos pedaços. Ainda ouço os ecos das risadas e do burburinho das discussões. Os ecos de tantos suspiros… Mas o tempo e a cidade devoraram tudo e só me restaram ossadas, memórias.

As aparências apodrecem como meu corpo, a casa, o quarto. A cidade de fachadas belas é juíza cruel e fria ditadora e, em nome da modernidade e de novos tempos, destrói o que considera impróprio. De minha janela, vejo os prédios se multiplicarem, ervas-daninhas gigantes de uma selva de pedra. Meu quarto foi condenado simplesmente porque é velho como eu. Minha vida já não importa. Já fui notificado, já aceitei os termos do contrato.

A ambulância chegará em poucos minutos para me levar para um asilo. Qual é a necessidade de me levarem? Quero ficar aqui… Batem cada vez mais forte na porta. A janela. O cinza dos prédios e seus sorrisos sarcásticos de vencedores encobrem o azul do céu. Como uma enorme onda que se projeta sobre um castelo de areia.

25/04/2007

Quebra de rotina

Fazia mais de dois meses que não chovia na minha cidade e parecia que aquele dia seria tão seco quanto os outros. Céu de brigadeiro. Cortina de renda branca feita de pó. Eu tinha a certeza de estar dentro de algum filme antigo, com suas cores surreais. O escritório latejava nos meus ouvidos como um rufar de tambores de execuções em praça pública. Precisava sair dali. O Sol, que entrava brilhando listrado pelas persianas, velava meus devaneios, mas eu sabia que aquilo não iria durar muito tempo.

Atendi ao telefone ao primeiro toque, mecanicamente. Era do médico, que tinha novidades para mim, mas não queria dizê-las por telefone. Ordenaram que eu fosse ao consultório o mais rápido possível. “Agora?”, eu disse. “Sim, agora”, a secretária respondeu. Desliguei o telefone e saí sem dizer nada. Meu gordo chefe, o senhor Almeida, entenderia a minha situação, pois ele também tinha tanto medo de médicos quanto eu e fizera, como um igual a todos nós, esses mesmos exames. Exigências da empresa.

Entrando na sala de espera do consultório, eu senti o forte cheiro de desinfetante que toda sala de espera tem. Um cheiro de ânsia e aflição, de nervosismo. A sala estava vazia e não se ouvia um único suspiro. O chão de pedra fria lembrava-me do chão da casa de minha mãe, limpa e morta. Eu sabia que havia algo de errado naquela sala, em eu estar ali. Enquanto isso, aquela sala continuava vazia, cheirando a medo. Ela continuava eterna, esperando o passar do tempo chegar.

Sentei-me no sofá com pés de pedra e procurei algo para me distrair. Encontrei um livro no meio de tantas revistas de arquitetura e oncologia. Nada na capa, apenas pó. Antes de ler as páginas amareladas, fui beber água e só então vi que a sala tinha uma janela que dava para a rua. Eu não errara: aquele dia estava tão seco quanto os outros. A cortina de renda estava lá, além da porta.

Voltei para o sofá e comecei a ler. História engraçada aquela, a princípio. Familiar. Falava de uma mulher e seu filho, de um pai que caía no mundo. Contava sobre rebeldia, a surra, a fuga, a raiva e a culpa. A mãe, como minha mãe, morria sem saber de nada, sem saber dos sofrimentos do garoto depois. O filho começou aquele esquema de trabalho-escola noturna, depois de ter trabalhado o dia inteiro. Acabavam seus estudos e sua rebeldia, se formava. Como eu. Tudo como eu. Vivia sozinho. Eu. Chorava de medo. Eu. O livro prendia-me.

Esqueci-me do médico, do chefe, do escritório. Era como seu um livro pudesse saber de tudo. Cada medo, ele contava cada medo meu. Os anos passavam para o filho como passaram para mim, sozinho, medo de sentir. Cada página um momento, e o livro nunca acabava. O filho foi para um médico, encontrou um livro e o leu, desesperado, pois o livro contava a história de um homem como ele. Virava as páginas rapidamente, e o livro não acabava. A cada página o filho tinha lido sobre o homem virando mais uma página, mais uma página… Joguei o livro no chão sem me preocupar se alguém ouviria. Suando, senti sede, precisava de água. Enchi outro copo e bebi-o perto da janela.

Na janela da sala vi uma nuvem, a chuva. Tinha começado a chover. Errei. Tremia segurando o copo, o livro no chão. Uma campainha tocou na sala e deixei o copo cair. Era a secretária que chegava e que me encontrou limpando a água do chão, segurando, ineficiente, as manifestações do choro. Perguntou mecanicamente meu nome e minha empresa, eu respondi. De maneira quase óbvia, repetiu a pergunta, mexendo nos seus papéis, com cara de engano. “O senhor não é o senhor Almeida?” disse. Respondi que não, atônito e, quem sabe, aliviado. “Me desculpe, senhor, houve um erro em nosso cadastro…”. Não a deixei terminar: “O senhor Almeida é o meu chefe”. Depois de alguma conversa, já mais calmo, saí daquela sala. Fugi.

O livro continuava no chão, com suas páginas olhando para a porta por onde saí, tinha certeza, sua capa de pó derretida na pedra fria do chão. Fora do consultório, eu o via pela janela. A chuva lambia meu rosto. O pó escorria do meu medo. A cortina sumira. A sombra da secretária guardava o livro entre as revistas. Chovia e para mim não importava a página seguinte. Respirei fundo o ar úmido da chuva e não pude deixar de pensar: “Pobre senhor Almeida!”.