04/12/2010

Um soneto

Vou, agora, lhe pegar pela mão
e vamos juntos dar nome às estrelas,
bebendo vinho no infinito vão
entre as minhas e as suas sobrancelhas.

Alguns dias foram, outros serão,
pois, sem depender de quaisquer certezas,
existem tardes de sim e de não...
Tudo, quando menos se espera, chega.

Faço-lhe um convite que não tem tempo
nem muito menos dever de resposta.
Nele, está escrito um pensamento.

É um desejo, sem falta nem sobra,
de ir comprar um vinho mais ou menos,
roubar um foguete e irmos embora.

03/12/2010

Um cachorro é pouco (...)

Um cachorro é pouco,
isso aqui tá é gato!
O vento está forte e frio,
mas o mar não está congelado.

Vinho tinto é pouco,
isso aqui tá é pinga!
Soam passos no corredor
e, certeza, são de gente amiga.

Meio café é pouco,
isso aqui tá é duplo!
O sol da manhã vai chegando
cada dia mais cedo, pulo a pulo.

Cebola é  pouco,
isso aqui tá é alho!
Mas, parece que, devagar,
os gostos estão menos amargos.

Chuveiro é pouco,
isso aqui tá é lago!
Sem chiar, o coração bate
num ritmo mais forrozeado.

Complicado é pouco,
isso aqui tá é tenso!
No entanto, essa coisa gira
um pouco mais a cada momento.

30/11/2010

Canção esperançosa

O mundo queima na palma das minhas mãos
e o calor desenha retratos de saudade.
A neve que me cerca serve de mais lenha
mesmo ela cobrindo o chão que guarda a verdade.

A terra nunca mente, isso eu aprendi
olhando dos ônibus, na chuva e na seca.
Compreendi brincando na rua, descalço,
que o chão verdadeiro não deve ter fronteiras.

Ventos frios me trazem sussurros da manhã,
essa mesma que é, por si só, inevitável,
mas difícil de fazer acontecer, claro:
Uma dor, nossa, que significa trabalho.

A luz que fazemos nascer no horizonte,
a fazer sorrir a carne do nosso mundo.
Pois cada coisa que criamos e dizemos
canta sempre a canção de cada um de seus frutos.

21/11/2010

É certeza que foi o diabo (...)

É certeza que foi o diabo
quem fez o vestido dela:
foi cortando o tecido com fogo
e costurando as flanelas
enquanto o mundo nascia.

As franjas dela, foi ele que fez,
antes de criar o Mal,
mas talvez planejando a Saudade.
Criativo e original,
o diabo a fez pra ser minha.

E pintou sua boca e seus olhos
em segredo, dando risada.
Ninguém faria tanta beleza,
pois esta era reservada,
limitada a Quem podia.

Mas ele fez ela mesmo assim,
num desafio divino.
Depois, ficou arrogante e mau,
e deixaram-na escondida
por eras, anos e dias...

Até que, por fim, eu a encontrei
e ela foi minha e eu dela.
O diabo, lá nos fundos, sorriu
de uma forma singela:
a boa-ação de sua vida!

21/10/2010

Dois faxineiros

Ele entrou no armazém da limpeza, indo buscar algum produto qualquer que precisava para o trabalho. Do lado de fora, o colega espera enquanto mexe lentamente o café com um pedaco de plástico desses que se dá para as pessoas mexerem o café, dentro de um outro plástico tansparente. É esquisito que facam isso, o colega pensa enquanto termina de mexer o café.

Onde está o maldito produto de limpeza? Onde está, no meio de todas essas coisas organizadas em prateleiras, caixas e pequenos conteineres de atacado? Cansa procurar, ele já fez isso milhões de vezes nas noites chatas e repetitivas de seu trabalho, turno do comeco da madrugada. No entanto, continua sem decorar as posicões dos diferentes produtos. É uma pequena batalha pessoal entre ele e o ser indefinido que organiza esse armazém, que prova-se ser um adversário admirável, de fato. Às vezes se repete, outras, não. O aleatório reina na interacão entre ele e essa pessoa que o atormenta indiretamente.

O colega olha para ele desde o lado de fora do armazém, esperando e tomando seu café. Bom café turco, a borra amarga e saborosa. Ele, o colega, despreza, profundamente, o café fraco que esses dinamarqueses fazem. Café aguado, sem sabor, sem pegada. Nem vale a pena por acucar, de tão sem graca, na verdade. Ele olha o outro, dentro do armazém, sem nem pensar em porque demora tanto. Outras coisas o preocupam, coisas sobre essa terra fria.

O produto não facilita a busca, está dentro de uma embalagem pequena, em um andar razoavelmente alto da prateleira, quieto, também esperando. Ele olha cada caixa, tentando decifrar os rótulos em negro sobre o papelão bege. Ele ainda é razoavelmente novo por aqui e a língua não facilita: a escrita é completamente diferente da fala e a fala…A fala não ajuda também - seus sons guturais, suaves e mastigados, são, em boa medida, incompreensíveis. As palavras do rótulo dancam, rindo dele, de sua incompreensão: ele não é daqui, nunca será, é o que os rótulos querem fazê-lo acreditar.

O outro termina o café e joga o copo descartável em uma das latas de lixo que ele e o colega acabaram de limpar. Seu turno está perto do fim: essa tarefa de agora é a última dele e a primeira do outro. Ele precisa do produto para terminá-la e ir para casa, depois de Nørrebro, e fala para o outro exatametne isso, mas sem pressioná-lo demais. Não seria bom, ele sabe que o outro está trriste e estressado, teve problemas com a burocracia outro dia, mas isso se resolve, ele sabe bem disso: nasceu aqui, tem fé no jeito certo das coisas acontecerem e se organizarem. O que ele não entende às vezes é como o outro demora tanto para entender onde ele, em seu turno da tarde, pôs os produtos no armazém. Explica em cinco minutos ao outro onde está o produto e como está organizado o armazém, e ambos trancam o armazém e vão limpar o refeitório da universidade. O outro, sorrateiramente, olha mais uma vez para a porta do armazém e repete para si mesmo a explicacão sobre o lugar certo de cada produto: ele vai se lembrar da próxima vez.

13/10/2010

Manhã de ressaca

A cidade não existe como a conhecemos, mas como a imaginamos nas escuridões (nem tão escondidas) das manhãs perdidas no sono da ressaca. Sempre imagino a cidade sorrindo seu sorriso mais puro nessas mesmas manhãs. O Sol brilha claro e azul, mas não conheco a sua cor, pois meus olhos fechados ainda me prendem à terra do sono. Quem dera a manhã ser mais amiga e me chamar para curtir essa raridade que é um dia feliz de fato? Por que a noite que me vê afundar em embriaguez sempre dá um jeito de avisar a manhã seguinte para me evitar?

10/10/2010

Reclamacão

Por que quebrar o silêncio
se ele intacto vale sempre
muito mais do que quaisquer
palavras que minha boca
poderia formular...

Por que insisto em falar
se o som só me leva à lona,
a mais imunda e qualquer.
Minhas palavras só mentem
no seu matar do silêncio...

Escrever é uma fuga
que também não vale nada.
Escrevo com meu desleixo,
vagabundo e incoerente,
linhas que, fumaca, choram...

Então, as pesadas luvas
do silêncio, numa rajada,
destróem orgulho e queixo.
E restam, timidamente,
páginas que não se dobram.

12/01/2010

Quatro nomes tem o vento...

Quatro nomes tem o vento na minha terra
e nenhum deles diz a verdade.
Os campos vazios e os animais imóveis,
estes, sim, sabem com certeza.
A solidão é indefinível e paradoxal
quando se percebe sua natureza.
Nas grutas do cotidiano espreita, lento,
um sussurro de solidariedade.

17/12/2009

A depressão...

A depressão come o bolo pelas beiradas
desenhando caminhos vazios na carne.
Ouço latidos e motores na noite desesperada
e sinto saudade das meigas canções da tarde.
Minha vista está cansada
e ainda sou muito novo.

O mundo pesa na balança dos mercados
enquanto todos correm para mover as turbinas.
Me pergunto quantos se lembram dos gemidos dos arados.
Os cães e o asfalto sussurram: injustiça!
Sinto que estou marcado
e ainda sou muito novo.

Ecos de acordes soam no ar morno
e minhas lembranças recentes são apagadas.
Dias passam em seu eterno retorno
e ainda sou muito novo.

15/06/2009

No aguardo

Uma sala de espera
antes de muitas escolhas
sendo que nenhuma é certa:
talvez sejam masmorras
ou estradas ao pôr-do-sol.
Tudo depende das escolhas
que um faz quando está só
enquanto frio lhe come os dedos.
No fim, tudo é bem óbvio,
desde as escolhas até os segredos.
A sala de espera é bastante fria
e sua metáfora é o medo,
lugar desagradável para passar os dias.
O tempo passa depressa
mas demora a alegria.
As escolhas ainda são incertas
e amanhã não é um novo dia.