12/01/2009

Rancor

A dor não irá embora, nem eu:
você tirou tudo de mim.
Quero ficar e estragar essa festa,
lembrando a todos quem fui.

Digo parabéns da boca pra fora.
Não, não, eu não posso ir embora,
sou eu quem pago a conta, lembra?
Quero ser navalha, cicatriz, casca.

Tenham nojo de mim, sei que mereço.
Rio dessa dor, dou a cara
e espero o tapa, que seja sonoro.
Minha língua arde de ânsia, de xingo.

Carreguem, me arrastem, me acorrentem:
me cai bem ser um Prometeu.
Meu fígado devorado à noite
será minha força de dia.

Sumam comigo, desapareçam,
o tempo será minha vingança.
Suas casas serão suas correntes.
Seu tormento, minha lembrança.

09/01/2009

Milagre

O seu toque leve em minha pele
como quem amassa um pão...
Desperte o fogo, que já venho.
Vou, beijando seus braços,
cheiro de farinha em suas mãos.

O forno já está quente e treme,
esperando a massa do pão.
Venha, vamos nos sentar à mesa
da fome quase infinita,
banquete de longa duração.

Quero engolir tudo que é seu.
Dois bocados de tensão,
sua saliva de vinho alegre.
Somos moinhos de vento,
moendo juntos suor e grãos.

06/01/2009

Otimismo

Tanto sangue, tanta dor,
numa terra tão escassa...
Tantos contra quantos?
Chove fogo em Gaza.
Nada é tão fácil ou simples:
Sangue não dissolve sangue.
Não existe papo
entre pedra e tanque.

Onde escondeu-se o perdão
quando dele precisamos?
Infinitos erros
perdidos nos anos.
Assimetria total
entre gente semelhante:
são todos humanos,
animais amantes!

Dois lares na mesma terra
é disputa complicada,
mas existe solução:
construam casas geminadas!

19/12/2008

Para um bom amigo

É fácil ser razoável
quando em tempos moderados.
A coragem para errar
é companheira exigente,
por isso ela não segue
covardes como você.

Mas, calma, tudo é curável
e temos nosso passado
manchado para provar.
Os erros nos fazem gente
e o perdão nos deixa leves:
também deixará você.

Tantos medos incontáveis
você venceu, são passado.
Coragem para começar
e, depois, seguir em frente!
Mude, desculpas não servem.
Ser feliz é com você.

14/12/2008

Uma sina estranha

Uma sina estranha me persegue:
ter os olhos sempre voltados à frente.
Adiante vamos, por estradas ciganas,
traçando linhas nas mãos de alguém,
recém-nascido mas já idoso,
sinais na beira dos caminhos.

O impossível precede a descoberta
como a terra acolhe a noção da semente.
No caminhar nômade das ânsias mundanas,
minhas retinas turvas vigiam além.
A próxima curva, o próximo poço,
a futura simples tumba de andarilho...

13/10/2008

valsinha

te mandei
uma ciranda
num guardanapo de papel,
como a alma dos homens.

e me lembro de você
nas noites frias
da tv,
trabalhando e pensando,
em te ver.

numa noite
sem igual
vamos enfrentar o mal,
dom quixote e os moinhos.

vamos subir
na maior
árvore do jardim
e vamos acenar
a quem nos sorrir.

e essa é a sua,
muito mais que minha,
canção.

O mp3 eu fico devendo, mas está a caminho!

19/05/2008

cheiros bons

Minha rotina?
Perder meu olfato
dentro dos vícios
das minhas fadigas.
Esquecer o sabor da maresia
e provar sempre o rízimo
do suor incompleto
de tarefas repetidas.

Como fui chegar nisso?
Um gozo sem cheiro de sexo.
Existem dúvidas sem rima
chamando meu nome na chuva.
Pois então que tudo suma
numa fogueira sem cinzas
estalando na distância
dos sonhos perdidos.

Renuncio a meu olfato
ou a meu 'estilo de vida'?
Dedos congelam na noite:
minhas luvas não servem para nada,
são como mentiras esgotadas.
É outra vez a mesma noite
com suas damas invadindo o frio.
Por entre narinas gastas,
um único cheiro me mantem vivo.

14/04/2008

Café com leite e pão

Vou caminhar sozinho,
Lembrando de quando estava acompanhado.
Projeto meus sonhos sorrindo,
Mas cuidando de continuar calado
Porque falar não vale a pena
Quando não se tem certeza
Se falar é boa idéia ou não
E, como qualquer outro, não quero ter o esforço
de recolher cacos da minha cara espalhados pelo chão.
Sim, sou medroso.
Sim, eu sou um cão.
Confesso que nasci para isso
E, apesar de não gostar disso,
Sou uma média e um pingado,
Café com leite e pão.

Esse poema é de 24/10/06.

12/04/2008

Perdão

Dentre as mentiras que já contei
essa nem sequer se destaca
por isso de cara lavada te peço
que perdoe meu erro sem mágoas.

De que vale a raiva, mesmo que justa,
se, mesmo que se destrua, não se apaga?
Aquilo que passou pode embaçar a vista
mas é cicatriz indelével, é marca
que dói como se de ferro e fogo fosse
mas que é tão pouco que é quase nada.

Sei que a justiça tem de ser feita
mas me nego a ser feito de culpado,
mesmo que o seja com todas as letras e provas,
pois não pode existir culpa em nosso judiciáro.

04/04/2008

O doce embalo da nicotina

A vida é muito complicada, é o que pensava o homem de uniforme vermelho. Na espera pela troca de turnos da loja de conveniências onde trabalhava, ele ansiava fumar. Sair da loja à noite era a única parte boa de seu trabalho. A noite fria na rua, o ar penetrando pelas brechas do agasalho e varrendo a fumaça quente do cigarro para longe. Nesses momentos quase compensava viver, ele sentia.

O mais complexo da vida são as pequenas coisas que exigem nossa atenção: as etiquetas de rastreamento, os protocolos do caixa, os jogos pessoais entre os funcionários... Ele não gostava dessas coisas: eram complicadas demais para ele.Para simplificar, o homem de uniforme vermelho roubava a cada quinze dias, às quinta-feiras, uma caixa de cigarros fortes, para fumar durante a noite. Tinha insônia e a fumaça o divertia em seu vôo visível pelas ruas vazias e soturnas.

No caminhar da volta, nada exigia sua atenção. Ele podia seguir em frente e se perder, que tanto fazia. A pequenez de sua cidade, como a de todas as cidades a noite, acolhia-o na certeza simples da fumaça e do caminho. Talvez não fosse nem uma questão da cidade em si, talvez o que o animava nessas voltas para casa fosse a certeza de se consumir, de gastar a vida que ansiava dentro de si mesmo, da maneira mais destrutiva possível, a mais egoísta e inútil. Fumar cigarros solitário na noite é o mais próximo que o homem de vermelho chega do niilismo.

O fogo que queima a ponta de seu cigarro não deixa margens à dúvida, pois deixa em brasa viva a verdade do tempo. O homem sofria, às vezes, pelo patético que era ter de roubar um símbolo, um auto-sacrifício. Não lhe era permitido se consumir à vontade, ser um hedonista. Tantas vezes ouvira sobre o imperativo da saúde, o último bem que os deuses podem nos tirar... Mentiras! Mas ele até gostava de mentiras, pois, ainda que parecessem complexas e intrincadas, elas continham em si um perfume falso, uma essência impotente e simples, como o fim de um cigarro.