14/04/2008

Café com leite e pão

Vou caminhar sozinho,
Lembrando de quando estava acompanhado.
Projeto meus sonhos sorrindo,
Mas cuidando de continuar calado
Porque falar não vale a pena
Quando não se tem certeza
Se falar é boa idéia ou não
E, como qualquer outro, não quero ter o esforço
de recolher cacos da minha cara espalhados pelo chão.
Sim, sou medroso.
Sim, eu sou um cão.
Confesso que nasci para isso
E, apesar de não gostar disso,
Sou uma média e um pingado,
Café com leite e pão.

Esse poema é de 24/10/06.

12/04/2008

Perdão

Dentre as mentiras que já contei
essa nem sequer se destaca
por isso de cara lavada te peço
que perdoe meu erro sem mágoas.

De que vale a raiva, mesmo que justa,
se, mesmo que se destrua, não se apaga?
Aquilo que passou pode embaçar a vista
mas é cicatriz indelével, é marca
que dói como se de ferro e fogo fosse
mas que é tão pouco que é quase nada.

Sei que a justiça tem de ser feita
mas me nego a ser feito de culpado,
mesmo que o seja com todas as letras e provas,
pois não pode existir culpa em nosso judiciáro.

04/04/2008

O doce embalo da nicotina

A vida é muito complicada, é o que pensava o homem de uniforme vermelho. Na espera pela troca de turnos da loja de conveniências onde trabalhava, ele ansiava fumar. Sair da loja à noite era a única parte boa de seu trabalho. A noite fria na rua, o ar penetrando pelas brechas do agasalho e varrendo a fumaça quente do cigarro para longe. Nesses momentos quase compensava viver, ele sentia.

O mais complexo da vida são as pequenas coisas que exigem nossa atenção: as etiquetas de rastreamento, os protocolos do caixa, os jogos pessoais entre os funcionários... Ele não gostava dessas coisas: eram complicadas demais para ele.Para simplificar, o homem de uniforme vermelho roubava a cada quinze dias, às quinta-feiras, uma caixa de cigarros fortes, para fumar durante a noite. Tinha insônia e a fumaça o divertia em seu vôo visível pelas ruas vazias e soturnas.

No caminhar da volta, nada exigia sua atenção. Ele podia seguir em frente e se perder, que tanto fazia. A pequenez de sua cidade, como a de todas as cidades a noite, acolhia-o na certeza simples da fumaça e do caminho. Talvez não fosse nem uma questão da cidade em si, talvez o que o animava nessas voltas para casa fosse a certeza de se consumir, de gastar a vida que ansiava dentro de si mesmo, da maneira mais destrutiva possível, a mais egoísta e inútil. Fumar cigarros solitário na noite é o mais próximo que o homem de vermelho chega do niilismo.

O fogo que queima a ponta de seu cigarro não deixa margens à dúvida, pois deixa em brasa viva a verdade do tempo. O homem sofria, às vezes, pelo patético que era ter de roubar um símbolo, um auto-sacrifício. Não lhe era permitido se consumir à vontade, ser um hedonista. Tantas vezes ouvira sobre o imperativo da saúde, o último bem que os deuses podem nos tirar... Mentiras! Mas ele até gostava de mentiras, pois, ainda que parecessem complexas e intrincadas, elas continham em si um perfume falso, uma essência impotente e simples, como o fim de um cigarro.

18/03/2008

Não sou artista [...]

Não sou artista.
Nasci para ser elo
(não eco, elo)
mas nunca serei o mais fraco.
Não farei imagens.
Serei uma face no documentário:
anônima, mas interessante
feito um livro esquecido
na poeira do tempo da estante.
Não crio receitas, as escrevo.
Sou um bibliotecário
infeliz, agressivo e rebelde
batendo com força seu cartão de ponto
mas indicando bons livros enquanto,
solitário,
escrevo meus próprios.

13/03/2008

cidades destruídas

nas noites solitárias
me pergunto quantos serão
nas cidades arrasadas
que o futuro trará.

pois destruir é um ato falho
que nos lembra das leis
do mundo que existe de fato;
a destruição é um fato consumado.

nessas mesmas noites de solidão,
o ar que respiro é frio
mesmo que seja verão
e me corre o suor pelas mãos
como se estivesse doente,
o que não deixa de ser verdade.

definhar é para sempre
e, como cidades são feitas de gente,
definharão na certeza do fim.

meu futuro é uma projeção
feita do presente que sinto
e não há esperança nisso,
apenas noites de solidão.

07/03/2008

morte

Todos falam tanto
mas a morte não diz nada
e dela reclamam
mesmo ela ali só, calada.
Berram em seus prantos
sem que vejam suas lágrimas:
chora pelos cantos
a medonha encapuzada,
frustrados seus planos
de um dia não fazer nada.
E temem seu manto
e sua voz tão cansada
mas negam descanso
à velha morte,
que não tem culpa de nada.

12/02/2008

Leveza

Ela vem como se nada
(como o sono dos cansados vem)
e não deixa cicatrizes,
deixa simples marcas
que não causam dor e, sim,
saudades.

Só de ver a gente aprende
a não deixar pegadas e, sim,
aromas pelos lugares
e sente-se na hora
a leveza de algo que ela traz
consigo e que não consigo entender.

Depois que ela passa,
as cortinas deslizam no fim
deixando um fino traço
de sua presença no veludo
do silêncio da casa vazia
e me resta uma gravura
distante de um sorriso
que se volta para mim.

08/02/2008

Noturna


Entre estrelas nós andamos
Procurando vida
Dentro de todos os homens
De todas as vilas
Talvez cada movimento
Pêndulos e dias
Seja a prova fundamental
De que ela exista
Talvez não seja visível
Mas vive nas vilas
Nos pêndulos vai e volta
Escorrendo viva

Onde será que vive nossa sina,
Senão é bem perto, bem escondida,
Atrás de faróis de postes de esquinas,
Brilho que tece o fio de nossas vidas?

Atravessando janelas
Como a brisa quente
Que vem de longe e de perto
Pessoas, Poente
No calor de sentimentos
Janelas da gente
A Lua guarda o silêncio
Da noite que sente
A vida é curta e bela
Viva, simplesmente
Se esqueça dos seus receios...
Enfim, siga em frente

Esse poema é de 12/08/2004.

04/02/2008

Um reflexo em um momento


O embrulho de meu tio chegou. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, com o passar dos anos, esse dia chegaria. Esse espelho velho, com borda de latão cheia de manchas, me acompanha desde pequeno, quando eu ainda vivia no sítio de minha vó. Lembro-me desse mistério de vidro e metal pendurado na parede do quarto do meu padrinho, que morava em um puxado que dava para o meu quarto. Meu padrinho era engraçado, vivia dizendo que aquele espelho era inútil e sujo. Eu nunca entendi por que ele fazia isso, insultar o objeto na parede.

Abro o pacote e vejo meu reflexo turvo no espelho. Fico espantado: a imagem está muito mais escura do que eu esperava. Sei que ela muda ano a ano, dia a dia, mas não pensava que estaria tão fosca. Talvez sejam as marcas da cidade grande, das preocupações e da euforia de tanta gente estranha junta e, ao mesmo tempo, distante. Mas não me arrependo de minhas escolhas. Sair de Votuporanga era necessário, eu não tinha aonde ir, onde aprender. Conforme eu virava um adolescente e, depois, um adulto, aquela vila e aquele sítio me sufocavam. Depois que meu padrinho morreu meu tio herdou o puxado e, junto com ele, o espelho de borda de latão.

Um homem do campo e um observador com visão para o futuro, esse era meu tio. Foi ele quem me estimulou a estudar e ir para a cidade, lutar por um lugar. Só se esqueceu de me dizer para ser feliz. Cada dia ele se levantava e olhava nesse espelho, que deixava sempre coberto. Entrevia pela porta do puxado o seu rosto antes de descobrí-lo: estava sempre pálido e mórbido. Tinha medo e eu sabia o porquê.

Meu padrinho, antes de morrer, me disse que aquele espelho era amaldiçoado. Eu estava só com ele em seu puxado. Meu padrinho, com olhos fixos no espelho, dizia que ele estava fosco, que ele não se via nas manchas do espelho. No mesmo dia, morreu. Meu tio não tardou a perceber do segredo de espelho. Ele entendeu.

O espelho em minha frente estava ficando sujo. Ou será que era meu reflexo? O tempo passou para mim também. Envelheci e mudei, tinha consciência disso. Meu tio morreu, o sítio ficou vazio. Os bens ficaram comigo e, entre eles, esse pedaço de vidro e latão. Fugi do sítio e venci, tenho meu lugar. Envelheci por isso, lutei. Não preciso de um objeto para lembrar-me de que vou morrer. Quebro o espelho de um só golpe. Por um momento, vejo meu padrinho e meu tio.

Vou à cozinha, pego uma pá e limpo os cacos de vidro do tapete. Misturadas com os pedaços do espelho, há lágrimas. Meu Deus, como passa o tempo!

Esse texto é uma redação da época do terceiro colegial, em 2004.
Fica aqui pra comemorar os 101 posts do blog. Valeu por lerem!

24/01/2008

engraçado, sempre chove...

na cidade seca
ele pede às nuvens chuva
essa mesma que nunca chega
pede uma chuva inteira
como no primeiro dia em que ela foi sua

saudades dele
ela sente o tempo todo
feito dor de picada de serpente
dor só dela feita de sempre
saudade que sente até nos dias de encontro

ele vai e caminha
pela cidade seca rasgando
qualquer distância que os divida
vira pedaço passado de vida
encontro que chega e coração galopante

e a chuva apressada
com seu conhecido não faz desfeita
cai percussão ritmada
chegando inteira na hora marcada
e ela, sorrindo das gotas, daquele outro dia se lembra